A história do malabarista prateado da Avenida Ipiranga

A história do malabarista prateado da Avenida Ipiranga

Wagner José Campos, 36 anos, se apresenta diariamente na esquina da via com a Silva Só

O fundo branco dos olhos negros e a parte interna dos lábios se destacam no corpo prateado. Somado às solas dos pés, são as únicas partes sem pintura no artista de rua Wagner José Campos, 36 anos, malabarista que se apresenta na esquina das avenidas Ipiranga e Silva Só, em Porto Alegre.

— Comecei a me pintar assim para colocar comida na mesa. Tá muito difícil conseguir emprego e eu não podia ficar em casa. Tenho seis filhos e minha esposa também está sem trabalho — conta, enquanto observa o sinal, ainda vermelho para seu show.

A fórmula usada para a tintura cromada não escorrer nem nos dias de chuva é uma mistura de hidratante e purpurina metálica. E gruda mesmo, fato comprovado pelo brilho na mão do repórter que cumprimentou o artista na manhã desta quinta-feira (17).

Sem camisa e sem calçados, as únicas vestimentas são uma bermuda e uma gravata, ambas de cor prata, para economizar na tinta — o custo mensal dos suprimentos para se transformar no prateado gira em torno de R$ 300. O cunhado e outros dois amigos compõe o “quarteto de prateados”.

— Começou com o magrão, e a gente está sempre aqui. Só procurar por ele ou por mim, que sou o gordinho — explica, batendo no tórax rechonchudo.

Com a prática adquirida, o porto-alegrense que se destaca sobre a faixa de segurança da Avenida Ipiranga termina a maquiagem em menos de 10 minutos. Para tingir as costas, usa o reflexo dos carros estacionados.

A saga de apresentações no movimentado cruzamento começou há quatro anos, quando o então açougueiro perdeu o emprego em um supermercado no Morro da Cruz, onde vive com a numerosa família. Um dos filhos foi adotado por ele, sem se importar em dividir o pouco que tem.

A jornada de trabalho começa às 7h, quando Wagner sai de bicicleta de casa a caminho do seu palco. Quando começou, utilizava laranjas para o malabares, hoje substituídas por três esferas profissionais, semelhantes a usadas em circos, “que não quebram nem se um carro passar por cima”.

A atividade só se encerra às 20h30min, quando o movimento de veículos diminui. O ganho diário gira em torno de R$ 70.
— Tem cliente que dá 10 centavos, uns que dão R$ 2, R$ 5….

Uma vez estava chovendo e uma senhora me deu R$ 100 dizendo pra eu ir para casa. Respondi que não podia porque tenho família grande pra sustentar e agradeci.

Quero sair do sinal. É cansativo. Final do dia dá câimbra para pedalar de volta pra casa. Quero ter um emprego e crescer.

WAGNER JOSÉ CAMPOS

Dentre seus benfeitores, cita jogadores de Grêmio e Inter.

— O William Pottker (meia do Inter) pagou a escolinha pro meu filho, que sonha em ser jogador — relata, deslumbrando um futuro melhor para o menino.

Com os ganhos na rua, Wagner conseguiu reformar a casa de dois quartos, feito que ele mostra, orgulhoso, pelas fotos de “antes e depois” salvas no celular.

Mesmo com o sucesso de público — que buzinava e o elogiava durante entrevista ao vivo para a Rádio Gaúcha —, revela o sonho de mudar de vida.

— Quero sair do sinal. É cansativo. Final do dia dá câimbra para pedalar de volta pra casa. Quero ter um emprego e crescer.

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Fonte: GaúchaZH
Foto:Tiago Boff / Agencia RBS

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