O pessoal está demitindo o que sobrou’: comerciantes que voltaram a fechar criticam Marchezan

O pessoal está demitindo o que sobrou’: comerciantes que voltaram a fechar criticam Marchezan

Desde a última quinta-feira (25), bares e restaurantes de Porto Alegre estão proibidos de atender clientes presencialmente, podendo operar apenas no sistema de tele-entrega ou pague e leve. A medida foi tomada pelo prefeito Nelson Marchezan Júnior (PSDB) frente ao rápido crescimento no número de pacientes em tratamento para covid-19 internados em UTIs da Capital. Contudo, foi recebida com revolta por empresários do setor, que reclamam que cumpriram todas as regras impostas nos três primeiros meses de enfrentamento ao coronavírus até o momento, enquanto a Prefeitura não teria feito a sua parte.

“A maioria dos restaurantes, quando começou a pandemia, demitiu uma parte dos funcionários e segurou outra. Agora, com esse novo fechamento, o pessoal está demitindo o que sobrou. O pessoal está demitindo todo mundo que pode porque não se sabe mais quando poderá trabalhar, quanto tempo ficará fechado, então está limpando a folha de pagamento”, diz Guilherme Zanin Pires, sócio do Bar Selva, localizado na Cidade Baixa. Ele conta que chegou a tentar operar no sistema de tele-entrega, mas, como o estabelecimento não prestava esse serviço anteriormente, acabou não funcionando.

Bares e restaurantes foram fechados em Porto Alegre pela primeira vez pelo decreto assinado por Marchezan no dia 21 de março. Durante dois meses, estabelecimentos puderam continuar operando apenas sem ocupação de mesas. A retomada das atividades, com restrição da capacidade e exigência de distanciamento entre as mesas, foi possibilitada a partir do dia 20 de maio. Na ocasião, Porto Alegre totalizava 44 pacientes com covid-19 internados em UTIs.

Ao longo dos dois meses de fechamento de bares e restaurantes, o município oscilou entre 28 e 45 pacientes internados simultaneamente, mantendo-se na casa das 40 internações até o dia 7 de junho. A partir de então, o que se viu foi um rápido crescimento. No dia 23, quando anunciou as novas restrições ao setor, Porto Alegre estava com 109 leitos de UTI ocupados por pacientes de covid-19. Na tarde desta segunda (29), já são 141, o que coloca a cidade, nas palavras do prefeito Marchezan, próximo do “limite aceitável de ocupação de leitos”. A Prefeitura trabalhava, no início da pandemia, com uma capacidade de 174 leitos voltados para o tratamento de covid-19, podendo ampliar ela para 255, mas já em um estágio de comprometimento do sistema de saúde.

Evolução do número de internações em UTIs simultâneas por pacientes de covid-19 | Fonte: SMS
Diante do quadro ainda estar piorando, a tendência é que restrições ainda mais rígidas possam ser impostas à circulação de pessoas. O que incomoda empresários do setor de bares e restaurantes ouvidos pela reportagem do Sul21 é o fato de terem cumprido as determinações da Prefeitura por 90 dias e que voltarem a fechar as portas neste momento possa ter um impacto maior do que se tivessem optado por manterem as portas fechadas. Neste momento, não há nenhuma perspectiva de quando as restrições ao setor serão levantadas.

Pires afirma que um dos principais problemas é a possibilidade de perda dos estoques que foram comprados com a perspectiva de retomada. “No nosso caso específico, a gente tinha um estoque que venceria em julho e agosto e conseguimos nos desfazer nesse período que abriu. Mas a gente tem conhecimento de pessoas que compraram muitas coisas e acabaram fechando”, diz.

Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no Rio Grande do Sul (Abrasel-RS), Maria Fernanda Tartoni, explica que, ao abrirem as portas no final de maio, os empresários do setor convocaram os funcionários que estavam com contratos suspensos pela adesão ao programa federal de apoio a empresas (MP 936), contrataram novos estoques de alimentos e bebidas e renegociaram contratos, contando com o fato de que, apesar de saberem que a volta de clientes seria gradual, pelo menos conseguiriam iniciar a retomada.

“Muitos, inclusive, utilizaram os seus últimos fôlegos para essa retomada acontecer. Aí, de uma forma que a gente acha nada prudente, aconteceu o fechamento novamente dos nossos estabelecimentos É mais um tombo para quem está muito machucado”, diz. “A gente tem que estar preocupado com a saúde, esse deve ser o foco sempre, tanto que fechamos os 60 dias, fomos coerentes com essa decisão, só que agora a gente precisa sobreviver. Muitas empresas já fecharam e, se continuar dessa forma, muitas mais vão fechar”, complementa — a Abrasel deve fazer nesta semana um levantamento de empresas do setor que já fecharam as portas.

No caso do Selva, dois funcionários foram suspensos quando a empresa aderiu às regras da MP 936. Com a lenta retomada das atividades, atendendo entre 10% e 15% dos clientes em relação ao período anterior da pandemia, o proprietário conta que optou por contratar um funcionário temporário. O temor é que o novo fechamento possa esgotar as reservas que restaram aos empresários neste momento. “A gente observa que o fôlego das empresas está acabando e o nosso também. A gente não sabe se, em algum momento, a gente simplesmente vai tentar encerrar as atividades. O maior problema é que a maioria das empresas não consegue simplesmente falar ‘eu não quero mais funcionar’, vai ficar conta para trás”, diz Guilherme.

O bar é localizado em um espaço alugado e, segundo Guilherme, o valor é “bem alto”, mas havia renegociado a suspensão dos pagamentos com o proprietário nos três primeiros meses da pandemia. “Ele foi bem compreensível com a gente, mas estava esperando receber o aluguel agora no próximo mês e a gente acabou fechando de novo. Vamos ter que fazer uma nova negociação”, afirma.

A posição da Abrasel é de que bares e restaurantes são locais de baixo risco de contágio com as restrições que estavam implementadas após 20 de maio. “Restaurante não dá aglomeração, até porque as pessoas não voltaram a frequentar. Numa média geral do setor, estávamos com 30% da nossa capacidade sendo ocupada. Ou seja, com 30% de capacidade, está muito longe de ser aglomeração. Tinha alguns restaurantes que atendiam uma, duas mesas por dia. É ruim? É, mas a gente acredita que fechar novamente é retrocesso para a caminhada da economia As coisas estavam acontecendo a passos de formiga, mas estavam acontecendo. Todo mundo estava se restabelecendo, agora, fechado novamente, muita gente não sabe o que fazer”.

Revoltado com as novas restrições a bares e restaurantes, um empresário do setor, proprietário de dois bares grandes na Cidade Baixa, mas que não quis se identificar, reclama que a Prefeitura não aproveitou o período de quarentena para preparar a cidade e agora coloca a conta no setor.

“Ficamos 60 dias no isolamento, conforme foi pedido, ficamos mais 30 dias vendendo uma merreca, cumprindo todos os protocolos, enquanto a Prefeitura liberou ônibus lotados, os supermercados é um álcool gel quando tu entra e o resto é tudo fila e superlotado. A outra coisa são os parques da cidade, o Moinhos de Vento lotado, a Redenção tem uma boa movimentação, muitas pessoas de idade andando, todo mundo sem máscara, a Orla tá lotada, sem máscara, aí o prefeito vai na imprensa e diz que a Orla não mexe com os números de contágio. Aí fica difícil. Se ele não faz a parte dele, nós fizemos a nossa parte. Agora a gente quer trabalhar para manter os empregos que restam, porque já foram mandados mais de 50% embora”, disse o empresário, que tinha entre 20 e 25 funcionários em cada bar e, durante o mês de junho, estava funcionando com cerca de 10 em cada um.

Em entrevista recente sobre os riscos de contágio em bares e restaurantes, o professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Ricardo de Souza Kuchenbecker destacou que o problema destas atividades está na inevitável interação entre duas, três, quatro, cinco ou mais pessoas. “Se esse distanciamento é inferior a dois metros ou se há um contato próximo, íntimo, por mais de dez minutos de duração num distanciamento menor do que dois metros, tem risco”, disse. “A aglomeração de pessoas continua sendo um fator de risco para a transmissão do vírus. Só o tempo vai nos dizer se é possível e seguro”, afirmou, alertando ainda que o consumo de álcool pode ser um fator de risco a mais, porque vem acompanhado do relaxamento de medidas de proteção.

Luís Eduardo Gomes | Sul21

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